Luiza na Índia!

Em 2010, o YFU-Brasil enviou a primeira estudante brasileira para a Índia. Sim, vocês estão lendo corretamente. Ela foi para Índia, país tão distante e diferente do nosso. Sim, esta foi sua primeira e única opção de país de destino para o intercâmbio. Sim, ela está muito feliz!
Recebemos um depoimento dela que gostaríamos de compartilhar com todos:
luiza na   ndia balan  o
“Há muitos anos ao ler um livro sobre religiões do mundo vi uma foto de uma menina enfeitada no Diwali, Festa das Luzes hindu. Lembro-me de ter pensado “Que lindo…mas como será que ela se sente?” e como era estranho e belo que no mesmo mundo tantas pessoas, tantas culturas e tantas diferenças existem. Desde então meu querer de um dia experienciar um outro modo de vida só aumentou, e a ideia de vir à Índia presenciar uma cultura tão antiga mas tão viva resultou no sonho “incomum” (para não falar dos muitos “o quê, na ÍNDIA?” ouvidos antes de vir) de fazer intercâmbio no país do Taj Mahal.
Então em Julho de 2010 aqui cheguei, com surpresas já de início. Por mais que tenhas lido sobre algum país ou costume, sempre há muito mais para descobrir e vivenciar na prática, foi o que senti desde meus primeiros minutos na Índia, a despeito de meses passados lendo sobre. No aeroporto ouvi inglês e hindi misturados(a Índia tem 22 línguas oficiais), vi pessoas de saree ou turbante mesmo no calor de 40ºC, banheiro estilo indiano, motorista do carro ao lado direito(mais uma influência da colonização britânica), trânsito caótico com barulho não só das animadas músicas de Bollywood mas buzinas a toda hora, pessoas simpáticas e comida sem talheres.
luiza e fam  lia 1
Minha família para o ano todo veio a ser minha mãe, uma dançarina clássica indiana que tem seu estúdio de dança, meu pai, meus dois irmãos mais novos, minha avó paterna e muitos animais de estimação. Apesar de “mãe ser tudo igual mas só muda o endereço”, como podemos comprovar no intercâmbio(a mãe, ou melhor, a família toda, é bem protetora com seus jovens, principalmente as meninas), há mudanças até pelo modo de chamar as pessoas na família; por exemplo, meus irmãos não me chamam pelo nome, mas sim “Didi”(irmã mais velha em Hindi), pois aqui não se chama ninguém mais velho que você pelo nome, e a importância e o modo da família lembra muito tempos passados no Brasil.
luiza de uniforme
Não diferente de “coisas do tempo da vó” foi a escola, com uniforme da cabeça aos pés, dos sapatos polidos a trança bem feita(maquiagem e acessórios são proibidos), gravata e camisa social, rezas e som da escola com hino nacional todas as manhãs, respeito ao professor – coisa proeminente na sociedade indiana, ainda mais misturada com o estilo de escola britânico, chamamos a todos de Mam. ou Sir, disciplina e até castigos. Mais surpresas no caminho, já que realmente gostei da escola, Cristã(há aqui na Índia milhões) e dirigida por freiras, com saris ao invés do tradicional hábito, pois lá foram muito receptivos e me ajudaram, desde as crianças do primário que adoravam me cumprimentar “Hello didi” a minha colegas de classe que me ensinaram a fazer uma trança no cabelo e todos sempre se mostraram interessado em fazer amizade e aprender sobre o Brasil. Nos divertimos nas atividades da escola, apresentamos danças e discursos, participei até do atletismo que nunca tinha tentado no Brasil. Irei sem dúvida sentir falta de levantar toda vez que um professor(sempre chamado de Sir ou Mam.) entra na sala, ou para a canção da escola ou de apenas passar os recreios vagando com as muitas amigas. Por sinal a língua das escolas privadas na Índia é o inglês, então acompanhei as aulas, porém no recreio todos(inclusive eu, ao fim) geralmente falam Hindi ou Punjabi(idioma de minha região), numa mistura mais pra “Hinglish”, o que faz daqui um lugar ótimo de aprender novas línguas e melhorar o inglês.
luiza e meninas em trajes t  picos
Minha rotina além da escola são as aulas de dança do estúdio da minha mãe onde também aprendo dança indiana e até Salsa, passo tempo com minha família, uma vez que aqui é tudo mais centrado neles, vemos filmes de Bollywood juntos, saio de vez em quando em aventuras de riquixá com meus amigos para arrastar o sari no mercado, vou ao templo com a minha vizinha e tomo algumas xícaras de chai diariamente, ainda mais quando sou visita na casa de alguém – já que como diz um famoso ditado aqui, “hóspede é um deus”. De qualquer jeito, prefiro não ser hóspede, mas sim parte dessa cultura tão cheia de cores e contrastes, que tem mil faces como seus famosos deuses e pode ser imcompreensível para uns mas a coisa mais lógica do mundo, literalmente, para outros. Houveram partes não tão coloridas assim, pois passei saudade das coisas do Brasil, num sentido como nunca tinha imaginado, porém amadureci com tudo numa terra tão diferente – mas que por sinal, além de ter latas de leite condensado na vendinha da esquina, rapadura nos invernos e feijão com arroz com a família aos domingos, tem uma cozinha ótima, então “saudades da comida da mãe” nem passei; foi mais algo “que saudades de andar pelas ruas sem ser uma atração turística”, uma vez que um estrangeiro de despercebido passa longe.
luiza m  os pintadas
Os casamentos, nos quais fui em muitos (acho que doze nesses últimos sete meses) e têm uma importância, duração de festa, quantidade de comida e ouro na noiva muito maiores que os nossos, são na maioria das vezes arranjados pelas famílias, o que é tão comum e aceitável a eles que há no classificados de domingo uma seção para quem procura um par para a vida toda. A sociedade é conservadora, mas talvez por isso mesmo possui uma cultura viva há milênios, com inúmeros festivais(a quantidade de feriados aqui é incrível também) e tradições únicas no mundo. Ao longo do ano as vivenciei com entusiasmo, fui à muitas celebrações religiosas(aqui é parte do cotidiano), tanto Sikh(maioria da minha região) ou Hindu, aprendi muito mais do que em livros ao ver as cores da Índia na vida real – não desmerecendo meu livro da infância, pois talvez devo a ele minha estadia aqui, e aconselho a quem quer fazer intercâmbio pesquisar antes de vir; mesmo quando a certeza de um ano de aprendizado é em qualquer país.
luiza e lamparinas
E a Festa das Luzes? Celebrei-a em novembro, com muitos fogos de artifícios e pisca-piscas pela vizinhança, presentes e visitas em casa, já que é a maior festa na Índia. Não sei se realmente me senti como aquela menina da foto se sentia, mas acendi as lamparinas anunciando um novo ano com fé de que esse ano é realmente algo novo em minha vida, e de inesquecível levarei mais do que fotos.
Obrigada a todos que me ajudaram a vir aqui, namaste! “
amo a   ndia

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